#coluna
E quem cobra o Conselho?
Enquanto o JEC soma em campo, fora dele persiste um erro grave de condução institucional.
Por: Gabriel Fronzi
17:42:00 - 27/04/2026
Compartilhe:
No futebol brasileiro, quase todo mundo aprende cedo quem deve ser cobrado. Cobra-se o técnico pela escalação, o atacante pelo gol perdido, o goleiro pelo rebote, o presidente pela promessa não cumprida. Às vezes, cobra-se até o roupeiro, o gramado e a chuva. Mas há um personagem institucional que, com frequência conveniente, passa pela vida do clube com a blindagem de quem está sempre um pouco acima da barulheira cotidiana: o Conselho Deliberativo.
No Joinville, porém, chegou a hora de fazer a pergunta mais necessária desta semana: e quem cobra o Conselho?
A pergunta não nasce de capricho, nem de vontade de criar crise paralela. Nasce de um fato objetivo. Em abril do ano passado, o Conselho Deliberativo aprovou, em reunião ordinária, que o modelo de SAF a ser constituído no Joinville seria o de 90-10, com 90% passíveis de negociação e 10% reservados ao clube associativo. A partir dali, o caminho institucional era claro, natural e até elementar: a matéria deveria seguir para uma Assembleia Geral de Sócios, ser apreciada formalmente e, depois, incorporada ao estatuto do clube.Era simples. Não era agradável, talvez. Não rendia manchete, talvez. Não produzia aplauso, certamente. Mas era o rito. Afinal, uma instituição séria se distingue justamente naquilo que faz quando o processo é menos emocionante do que o discurso.
O problema é que o Joinville passou um ano vendo esse assunto escorrer pelos dedos. Nesse intervalo, o clube teve três presidentes do Conselho Deliberativo e, ainda assim, a pauta não foi levada à Assembleia Geral. Ficou esquecida, adiada, dispersa, largada naquele tipo de gaveta onde o futebol brasileiro costuma guardar o que é importante demais para continuar sendo tratado com desleixo.
Isso, por si só, já seria grave. Mas se torna ainda mais grave quando se observa o que aconteceu agora.
Na semana passada, o Conselho aprovou a proposta da Sportheca, que trabalha com um arranjo diferente daquele modelo de 90-10 anteriormente aprovado. Na prática, o formato aceita 90% das ações para a investidora, mas abre a possibilidade de comercialização de outros 9%, deixando ao clube associativo a chance de, no futuro, permanecer com apenas 1%.
Eis aí a dimensão do problema. Não se trata, neste momento, de dizer se a proposta da Sportheca é boa ou ruim. Este não é o centro da questão. O ponto central é outro, mais incômodo: o Conselho negligenciou durante um ano a tramitação de um modelo que ele mesmo aprovou e, por causa dessa omissão, ajudou a criar um ambiente em que uma proposta mais profunda, mais sensível e potencialmente mais arriscada passou à frente do que deveria ter sido resolvido antes.
É como se uma família decidisse, em reunião, que antes de vender a casa precisava regularizar toda a documentação. Todo mundo concorda, todo mundo assina a ata, todo mundo bate no peito dizendo que aquele é o procedimento correto. Aí os meses passam, ninguém resolve papel nenhum, ninguém vai ao cartório, ninguém confere matrícula, ninguém enfrenta a burocracia. De repente, aparece um comprador oferecendo um negócio complexo, cheio de cláusulas, e a família senta à mesa para discutir a venda sem ter feito a lição de casa mais básica. O problema, nesse caso, não é apenas a proposta do comprador. É a negligência de quem deveria ter preparado o terreno.
Foi exatamente isso que o Conselho Deliberativo do Joinville fez.
Precisamos, todos, dizer isso com a firmeza que o momento exige. Porque, em ambientes políticos, existe uma tentação permanente de diluir responsabilidade até que ninguém seja realmente responsável por nada. Na bola, o técnico perde e é cobrado na segunda-feira. O presidente atrasa salário e é pressionado na terça. O jogador oscila e escuta vaia na quarta. Mas o Conselho atrasa um rito essencial por doze meses e, muitas vezes, o episódio é tratado como se fosse apenas um desencontro administrativo.
Aliás, é mais do que isso: é falha de prioridade.
E prioridade, no Joinville, tem histórico. O mesmo ambiente institucional que agora se mostrou lento, hesitante e incapaz de conduzir com celeridade uma matéria central para o futuro societário do clube foi bem mais rápido quando o tema era o aumento do mandato presidencial, aprovado com uma velocidade que chamou atenção há dois anos. Portanto, o problema não parece ser simplesmente incapacidade operacional. Quando convém, o clube encontra ritmo. Quando interessa, o processo anda. Quando mobiliza determinados setores, a engrenagem gira. Por isso, o que se viu com a pauta da SAF não foi apenas demora: foi uma escolha política travestida de inércia burocrática.
Toda inércia, quando ocorre no ponto central da governança, deixa de ser neutra. Ela produz consequência. Neste caso, a consequência foi inverter a ordem lógica da discussão. O correto, agora, parece evidente: quando a Assembleia Geral de Sócios for marcada, a primeira pauta precisa ser justamente a matéria pendente, a do modelo 90-10 aprovado lá atrás e nunca submetido ao rito final. Só depois disso faz sentido discutir, de forma madura e juridicamente mais limpa, a proposta específica da Sportheca.
Essa sequência não é preciosismo formal. É proteção institucional. Clube que embaralha a ordem dos próprios assuntos mais importantes costuma terminar refém da urgência, da narrativa do momento e da pressão externa. E quando a instituição se habitua a discutir o extraordinário sem ter resolvido o ordinário, ela vai deixando de ser conduzida por princípios e passa a ser levada por empurrões.
Enquanto isso, o campo oferece uma espécie de anestesia tentadora. O JEC conquistou 10 dos 12 pontos disputados. É um início competitivo, consistente, que naturalmente produz uma boa vontade no ambiente. E faz bem que seja assim. O futebol precisa de paz para trabalhar. Porém, a paz esportiva não pode virar sonífero institucional. O Joinville precisa discutir SAF, precisa discutir investidor, precisa discutir futuro e sobrevivência. Tudo isso é real. Mas precisa ser minimamente organizado para tal.
O Conselho Deliberativo do Joinville tinha uma função clara nesse tema. Não era montar elenco. Não era captar patrocínio. Não era organizar treino. Era apenas conduzir um assunto fundamental ao fórum competente, dentro do rito adequado. Era um único dever, e o Conselho falhou em cumpri-lo no tempo necessário.
Por isso, a pergunta permanece de pé e merece ecoar sem constrangimento: quem vai cobrar o conselho?
No fim das contas, Conselho Deliberativo também entra em campo. Talvez sem chuteira, sem gramado e sem torcida gritando seu nome. Mas entra. E quando erra o roteiro de uma decisão tão importante, precisa ouvir a mesma cobrança que o clube se acostumou a fazer a todos os demais.Porque, numa instituição séria, não existe poder grande demais para escapar de pergunta simples.
Fodo de capa: Divulgação JEC
Galeria de Imagens:
- Nenhum conteúdo encontrado
Copyright © 2026 Ponto Norte Notícias
Desenvolvido por
Cayman Sistemas


