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O que representou a entrevista de Eduardo Tega à 89FM?
Papo no 89 Esportes ajudou a expor a proposta da Sportheca para a SAF do Joinville, mas também reforçou a principal dúvida do processo.
Por: Gabriel Fronzi
12:05:00 - 22/04/2026
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Há negociações no futebol que se parecem com reforma de casa antiga. A parede está úmida, a instalação elétrica inspira cuidado, o telhado já deu sinais de cansaço e, mesmo assim, todo mundo sabe que não dá mais para adiar. O problema é que, nessas horas, não basta aparecer alguém com boa conversa, planta bonita e promessa de acabamento de primeira. Antes de entregar a chave, é preciso entender se o interessado quer de fato morar na casa ou apenas dar uma repaginada rápida para vendê-la mais cara na frente.
É por aí que passa, na minha visão, a leitura da entrevista concedida por Eduardo Tega, CEO da Sportheca, ontem, ao 89 Esportes. Em linhas gerais, a aparição pública foi positiva. Houve serenidade, tentativa de organização do discurso e, sobretudo, uma exposição mais nítida do projeto em um momento decisivo para o futuro do Joinville. Ainda assim, ficou a sensação de que Tega desperdiçou uma oportunidade relevante de ser mais direto com a torcida e com o ambiente político do clube.
Num processo tão delicado, objetividade não é detalhe de comunicação. É critério de confiança. E, nesse aspecto, pesou o contraste com a entrevista recente de Jaime Andrade ao mesmo canal. Enquanto o concorrente - por perfil - foi mais incisivo nas respostas, Tega preferiu um caminho mais cuidadoso, mais corporativo, mais arredondado. Em negociação empresarial, isso pode ser prudência. Porém, em um clube de futebol, onde a desconfiança costuma chegar antes da esperança, isso também pode soar como desvio excessivo.
Tega lembrou que a Sportheca foi a 24ª empresa na fila do Joinville e defendeu que o grupo construiu um plano robusto, com players de renome nacional, arquitetando os alicerces da BR Football. Também tratou do contrato de exclusividade, válido até a votação do conselho, como uma proteção necessária diante do tempo, da energia e dos profissionais mobilizados para montar a proposta. Sob a lógica de mercado, o argumento é compreensível. Ninguém reúne equipe, estrutura e capital intelectual para disputar um processo sem alguma garantia mínima de segurança.
Mas o futebol não é apenas uma mesa de negócios. E o Joinville, especificamente, chega a esta discussão depois de anos de desgaste institucional, precariedade financeira e baixa tolerância a zonas cinzentas. Por isso, toda cláusula que em ambiente corporativo pareceria natural precisa, neste caso, ser acompanhada de transparência redobrada. Ou seja, não basta ser juridicamente defensável. É preciso também ser politicamente assimilável.
Outro ponto importante da entrevista foi a negativa de ingerência da Sportheca ao longo dos últimos 14 meses de negociação. Tega disse que não houve participação na gestão do clube, que faria escolhas diferentes em relação à permanência de algumas pessoas e que o contato se limitou a consultas breves. É uma fala relevante, pois ajuda a delimitar a responsabilidade num período em que a simples proximidade entre as partes já alimentava suspeitas. Ao mesmo tempo, ela produz um efeito colateral curioso: se não houve influência, a futura gestão precisará se explicar ainda mais quando herdar um ambiente que conhece, mas que insiste em descrever como se estivesse observando do lado de fora.
Todavia, o centro da discussão, ao meu ver, está em outro lugar: o modelo do negócio. A Sportheca queria inicialmente 100% da SAF. Agora se adapta ao arranjo de 90% para o investidor e 10% vinculados ao clube, conforme exigência do conselho. Aparentemente, é uma composição conciliadora. Só que ela não elimina a pergunta principal. E, talvez, na verdade, ela a torne ainda mais necessária: por que um grupo investiria por dez anos, assumiria desgaste, pisaria em terreno instável, faria aportes e reorganizaria o Joinville para, ao fim do caminho, simplesmente ir embora de mãos vazias?
No mundo real, isso quase nunca acontece. Quem investe pesado num ativo problemático costuma trabalhar com a perspectiva de capturar valor lá na frente. Eis aí um ponto que, para mim, precisa ser dito com todas as letras: é muito plausível que a Sportheca, por meio da BR Football, enxergue o Joinville como um projeto esportivo e também um ativo de valorização futura. Em termos simples, o plano pode não ser apenas reconstruir o clube. Pode ser reconstruí-lo para revendê-lo depois, em condições mais vantajosas.
Não há escândalo automático nisso. O mercado funciona assim em inúmeros setores. O problema é que clube de futebol não é apartamento na planta, não é carro recuperado para repasse, não é ponto comercial comprado em baixa para venda em alta. O Joinville carrega patrimônio simbólico, vínculo comunitário, identidade local e uma massa social que não pode descobrir no meio da viagem que embarcou num projeto com destino diferente daquele anunciado na plataforma.
É justamente por isso que a governança se torna decisiva. Se a negociação está sendo feita com a Sportheca, o clube precisa se proteger desde já para o cenário em que a BR Football queira, adiante, transferir esse controle a terceiros. Quem poderia comprar depois? Em quais condições? Com que limites? Com quais travas? Qual o poder real do clube e do conselho nessa hipótese? Quais são os resguardos que impedem o JEC de virar uma mercadoria em vitrine, repassada quando atingir cotação melhor?
Essas perguntas não são paranoias. São obrigação.
Em qualquer família minimamente prudente, ninguém vende a casa herdada sem ler a escritura. Ninguém assina contrato de financiamento olhando só para o valor da primeira parcela. E ninguém entrega a chave do negócio a um sócio novo sem discutir a cláusula de saída. No caso do Joinville, o debate não pode se resumir à entrada. Precisa alcançar também a porta dos fundos. Saber como alguém entra é importante. Saber como alguém sai, e para quem pode passar a chave, talvez seja ainda mais.
Tudo isso ganha peso adicional quando se observa a situação financeira imediata do clube. Mesmo navegando em águas um pouco mais tranquilas no início da Série D, o JEC segue observando horizontes delicados. Afinal, segundo a apuração da 89FM, existem cerca de 5 milhões de reais em débitos até o fim de dezembro, contra uma previsão de receitas de apenas 1 milhão. Ou seja, um déficit estrutural de 4 milhões.
Em qualquer análise honesta, esse quadro ajuda a explicar por que propostas de investimento tendem a ganhar apelo. Quando a casa está com a despensa vazia, até a visita barulhenta parece solução.Tega garantiu, ainda que de forma cuidadosa, que a Sportheca e a BR Football assumem a responsabilidade sobre esse valor faltante e que há investidores aptos a complementar a captação, apoiados na liquidez já demonstrada em aportes anteriores. Essa garantia importa, porque o JEC não discute a SAF a partir do conforto. Discute a partir da necessidade. E necessidade, no futebol, é conselheira perigosa. Ela ajuda a tomar decisões urgentes, mas também pode empurrar escolhas mal calibradas quando o desespero fala mais alto do que a lucidez.
No campo esportivo, a entrevista também apresentou metas ambiciosas. A prioridade zero, segundo Tega, é devolver o calendário ao clube, o que passa por acesso e recuperação competitiva já no próximo ciclo. Faz sentido. Sem calendário, o clube respira curto, arrecada pouco e planeja mal. Também foi mencionado o desconforto com a posição do Joinville no futebol de base, hoje apenas o nono de Santa Catarina, e a intenção de levá-lo ao primeiro lugar. Além disso, surgiu a meta de colocar o clube entre os 30 principais do país.
Toda ambição é bem-vinda, desde que não se transforme em apresentação de PowerPoint vendida como atalho histórico. Querer o topo da base catarinense em curto prazo pode soar mais como peça de convencimento do que como meta amparada na realidade. Desenvolvimento de base não se faz como quem troca fachada de loja. Não basta anunciar padrão de excelência. É preciso formar cultura, método, captação, estrutura, integração, tempo. O futebol brasileiro está cheio de planos que parecem extraordinários na entrevista e ordinários no primeiro encontro com a rotina.
Ao fim, a sensação deixada pela fala de Tega foi ambivalente. De um lado, há musculatura financeira, organização de projeto, percepção mais clara de prioridades e disposição para enfrentar um clube em situação vulnerável. De outro, persistem lacunas objetivas justamente nos pontos que mais interessam ao Joinville enquanto instituição: o grau de franqueza sobre o destino final do investimento, os mecanismos de governança para uma eventual revenda futura e a medida exata entre ambição legítima e promessa excessiva.
A votação desta noite, no conselho deliberativo, acontece exatamente nesse cruzamento entre a urgência e a cautela. No fim das contas, a discussão não é apenas se a Sportheca e a BR Football têm dinheiro, projeto ou boa vontade. A discussão é se o Joinville está prestes a encontrar um parceiro para reconstrução ou um operador especializado em comprar barato, valorizar e passar adiante. As duas coisas não são necessariamente incompatíveis. Mas elas exigem contratos muito diferentes e vigilâncias ainda mais distintas.
No futebol, como na vida, às vezes o problema não está em vender o carro. Está em descobrir tarde demais que você assinou os papéis sem perguntar quem ficaria com ele depois.
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