#coluna
A culpa pelo ócio
Muita gente pensa que parar é recompensa e não parte do processo.
Por: Renata Seliprim
13:10:00 - 06/04/2026
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Tenho certeza de que em algum momento específico do dia algo parecido com isso costuma acontecer.
Tu se senta, talvez pegue o celular, ou simplesmente fica ali… sem fazer nada considerado muito importante. E, do nada, vem o pensamento: “eu deveria estar fazendo alguma coisa útil”.
Não é exatamente uma culpa escancarada. Às vezes é só um incômodo, uma inquietação leve, como se o descanso precisasse de justificativa. Como se parar fosse, de alguma forma, errado.
A gente aprendeu — sem nem perceber direito quando — que valor tem a ver com produtividade. Que um dia bom é um dia cheio. Que descansar é recompensa, não parte do processo. E aí, quando não tem entrega, não tem meta, não tem movimento… parece que falta alguma coisa. Ou pior: parece que a gente está falhando.
Mas o corpo não funciona em linha reta. A mente também não.
Tem um tipo de cansaço que não se resolve com mais esforço. E tem um tipo de pausa que não é luxo, é necessidade. Só que isso quase nunca aparece como prioridade. Descansar, muitas vezes, vira aquilo que a gente tenta encaixar depois — quando sobra tempo, quando dá, quando “merece”.
E talvez seja justamente isso que pese.
Porque, no fundo, a gente não desaprendeu a descansar. A gente desaprendeu a descansar sem culpa.
Ficar sem fazer nada carrega uma fama injusta. Parece desperdício, parece preguiça, parece falta de ambição. Mas nem todo silêncio é vazio. Nem toda pausa é perda. Tem coisa que só se organiza quando a gente desacelera — pensamento, emoção, ideia, até o próprio corpo.
Só que, como tudo hoje precisa ser útil, até o descanso às vezes vira tarefa: meditar direito, relaxar direito, aproveitar o tempo livre do jeito “certo”. E, quando a gente percebe, até o não fazer nada já ganhou regra.
Talvez o convite seja mais simples — e mais difícil também.
Perceber quando essa cobrança aparece. Não pra brigar com ela, mas pra entender de onde vem. E, aos poucos, experimentar pequenos espaços onde não precisa ter propósito imediato. Onde não precisa render, nem justificar.
Nem todo tempo precisa ser preenchido.
Às vezes, “não fazer nada” é só o corpo respirando sem pressa. E isso, por si só, já é alguma coisa.
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