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Fernando Lima: uma vida dedicada à dança

Na coluna desta quinta-feira, 19, conversei com o bailarino, professor e coreógrafo.

Por: Rodrigo Domingos

08:45:00 - 19/03/2026

Fernando Lima: uma vida dedicada à dança

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Na coluna desta quinta-feira, 19, conversei com o bailarino, professor e coreógrafo Fernado Lima, uma das grandes referências da dança joinvilense, ele me fala sobre carreira, conquistas e sua despedida definitiva dos palcos como bailarino, que acontecerá em maio na Europa.

Fernando como a dança entrou na sua vida?

Na verdade, eu não lembro da minha vida sem a dança, quando eu me entendo como ser humano e já compreendendo um pouco sobre a vida, eu lembro que eu já estava inserido nesse meio.

Eu lembro que eu sempre tive incentivo, fui criado pela minha vó, e ela me levava nestes concursos de lambada quando criança, e sempre tudo que existia relacionado a dança, na escola, ou qualquer lugar que eu pudesse ocupar, eu sempre estava participando, e a dança sempre foi meu foco.

Eu acredito que isso tenha vindo desde a minha infância, meio intrínseco, algo que surgiu, um sentimento de sabor pela dança, e fui descobrindo o poder que a dança tem de transformação, e principalmente de realização pessoal, profissional, algo que eu podia me expressar e ser eu mesmo.

Você atuou como bailarino e assistente coreográfico na Moa Nunes dance Company na cidade de Luxemburgo, e ministrou aulas em escolas de dança de Luxemburgo e Bruxelas (Bélgica). Como foi essa experiência?

Essa experiencia de ter morado fora, foi graças a meu mestre, que deu aula para mim desde os meus 14 anos, e formou em relação ao jazz, e anos depois ele foi para Luxemburgo, hoje ele reside há 30 anos lá.

Nos encontramos novamente em 2008, eu estava com uma coreografia no Festival de Dança de Joinville, eu estava com uma coreografia e ele estava por aqui, na época que as redes sociais eram mais distantes, trocamos e-mails, e ele me convidou para estagiar lá com ele, e eu fui, fui a primeira vez, gostei, acabei voltando e participei de vários projetos, foi um divisor de águas na minha vida.

Foi onde eu descobri novas culturas, novas possibilidades de dança, novas formatações e principalmente sobre sobrevivência, foi minha transformação de criança para homem, aprender uma nova língua, de entender novas movimentações. Apesar de que a dança e as técnicas sejam universais, a forma de entender a dança é muito específica em vários locais, nós do Brasil temos este calor, swing, a energia, o europeu traz o refinamento, a potência técnica, a disciplina, como organizar uma aula.

Em maio, levarei mais um grupo de 10 bailarinos para Luxemburgo, este é o terceiro elenco que estou levando, farei alguns bailarinos vivenciarem tudo que vivi lá.

Você é coreógrafo e bailarino, atua nas modalidades jazz e dança contemporânea. Quais as principais diferenças e técnicas entre essas modalidades?

Na verdade, estou encerrando minha carreira como bailarino, esse espetáculo em Luxemburgo, será minha última participação. Aqui no Brasil já encerrei minha carreira como bailarino há muito tempo, mas sigo como coreógrafo e professor, nas modalidades de jazz e dança contemporânea. O que eu percebo é que o jazz é uma modalidade muito codificada, eu tenho os códigos muito claros e precisamos respeitar, porque é uma modalidade que apresenta técnicas muito específicas.

A dança contemporânea eu digo que é uma descoberta diária, a dança contemporânea é aquilo que a gente pode descobrir de novo e tentar fundar isso como técnica, para poder aprimorar cada vez mais a consciência corporal e ter essa liberdade poética de criação, a dança contemporânea é mais livre, é mais pesquisa mesmo, conseguimos aprofundar mais o tema proposto, novas descobertas mesmo, aliando essas duas, te traz uma potência artística muito profunda, experiencia técnica a explosão de tons, deixando o corpo plural, e inteligente para que possa reproduzir essas histórias que contamos com a arte do movimento.

Como foi remontar a coreografia “Versos Íntimos”, de sua autoria, com a Cia. Jovem Bolshoi Brasil e como funciona a pesquisa para o desenvolvimento de uma coreografia, o seu envolvimento, já que você já coreografou diversos grupos além do seu?

Ter este espaço dentro da Escola Bolshoi, sendo um joinvilense, que não me formei na instituição, porque quando o Bolshoi chegou, eu já era um profissional de dança, que precisava sobreviver da dança, e precisava me manter.

A excelência que o Bolshoi traz, dessa formação, e trazer essa abertura para um profissional da cidade, é uma oportunidade única, é sempre uma honra, porque sabemos o peso que a escola tem, que reverbera, para além do projeto social, pela metodologia.

Quando sou convidado, me sinto reconhecido, a gente cria para corpos com excelência, que quase não encontramos pelo caminho, foi muito prazeroso, eu tentei trazer um casamento entre as linguagens, a linha clássica com minha linguagem, e assim foi criada “Versos Íntimos”, criada com tanto amor, dedicação e carinho.

Conte-me um pouco sobre o Centro de Dança e Pesquisa Fernando Lima?

O Centro de Dança e Pesquisa Fernando Lima, na verdade surgiu da necessidade de formação mesmo, eu tenho meu grupo desde o ano 2004, e ele sempre teve o intuito de trazer pessoas que fossem da dança, mas que não tinham lugar que pudessem desenvolver essa parte artística. Chegou uma hora que houve a necessidade de formação de elenco, então tive a ideia de criar este centro de dança e pesquisa.

O que muita gente não sabe, o porquê deste nome, foi uma homenagem ao Centro de Dança e Pesquisa Flávia Vargas, a primeira escola que me deu oportunidade, ganhei uma bolsa e ingressei neste mundo, foi um “start” na minha vida acadêmica em dança, depois passei pela Comdança, programa do Sesi, por tantos outros projetos que me deram oportunidade.

Foi através do meu pai que consegui essa bolsa, meu pai era fotógrafo do jornal ANotícia, minha madrasta era da redação, e passava minhas férias de julho com eles. Um dia me pai me levou numa cobertura no Festival de Dança de Joinville, essa noite era jazz, esse jazz foi algo que me surpreendeu, me atravessou de alguma forma, e foi ali, com 14 anos, que soube realmente o que queria da vida.

Abri a escola em 2019, em 2020 veio a pandemia, foi um desafio, depois da pandemia, pessoas que estavam paradas 20, 30 anos, começaram a surgir na escola, pois queriam retomar essa atividade, elas queriam recuperar o que mexiam com o coração delas. Rodamos o Brasil com espetáculos, mas o Centro de Dança e Pesquisa Fernando Lima, é um local que acolhe todas as idades, todos os corpos, de 3 a 60 ou mais anos, trouxe um novo olhar para dança.

No ano de 2023, seu grupo foi vencedor do 40º Festival de Dança de Joinville, na categoria Jazz, mas esse não foi seu único prêmio no maior festival de dança do mundo. Qual sua relação com o festival, e a emoção de fazer parte dele?

Os últimos anos tem sido anos, que se pudéssemos contar um tempo atrás, nem acreditaríamos, nessa potência que o jazz é hoje no Brasil, principalmente do eixo Rio, São Paulo, sempre corremos atrás, sendo inspirado por essas pessoas.

Eu já participo do Festival de dança de Joinville como coreógrafo desde o início dos anos 2000, ganhei alguns prêmios, que foram muito bacanas, mas acredito que nossa grande ascensão do nosso trabalho, foi a partir do 40º Festival, que foi a primeira vez que um grupo joinvilense na história do festival, ganhou na modalidade jazz, eu fiquei muito feliz, tivemos oportunidade de mostrar nosso trabalho e sermos reconhecidos por ele.

O que não esperamos, que no ano seguinte, seríamos bicampeões, e fui indicado pela primeira vez como melhor coreografo, e o grupo ganhou um prêmio especial, medalha de ouro, pela ambientação da obra e ganhamos também o primeiro lugar no solo contemporâneo sênior masculino, com o bailarino Mijael Aborav, um trabalho de minha autoria também, que hoje integra o Kibbutz Contemporary Dance Company, em Israel.

Em 2025, fomos tri campeões nessa modalidade, um feito, depois de 20 anos, que só Roseli Rodrigues e o Grupo Raça alcançaram. E aí nos honra muito, não só pela premiação, mas pelo reconhecimento de uma escola, de um grupo que é de Joinville, que faz arte para os daqui.  Mijael foi bicampeão em sua categoria, foi indicado melhor bailarino, fui indicado como melhor coreógrafo pela segunda vez, o grupo foi indicado a medalha de ouro, como melhor apresentação do festival.

Isso é uma responsabilidade, nos faz a cada ano pesquisar mais, nos aprofundar em nosso trabalho, fundamentar mais a nossa técnica. Nos enche de orgulho.

Qual o futuro do bailarino e coreógrafo Fernando Lima, algum sonho ainda pendente?

O futuro, o que posso falar é sobre os sonhos, é conquistar ainda mais espaço, para que eu possa reverberar ainda mais amor, responsabilidade, ter cuidado e carinho, com o corpo, com a matéria humana, um olhar de desafio, conhecer novos lugares, novas sensações. Mas eu acho que tudo que eu praticamente sonhava aconteceu, esse reconhecimento na minha cidade, hoje eu sou professor de cursos dentro do festival, sempre lotados.

Estou rodando o Brasil intenso, anos intensos, fiz eventos de norte a sul do Brasil, inclusive uma agência portuguesa me convidou para ministrar cursos, uma imersão, montando coreografias durante 15 dias, deixei alguns trabalhos meus lá, que já deram resultados, de primeiro lugar.

Que a dança possa me levar para lugares que eu já mais imaginava, e que eu possa mostrar minha verdade e o amor que eu tenho pela dança, minha assinatura.

Quais são as suas referências na dança?

As minhas referências sempre serão meus mestres, os que me fizeram acreditar, fizeram sonhar, o maior deles é o Moa Nunes, que está na minha vida há tantos anos, meus professores Ronald Soares, Evelise Wetzel, Grazi Furtado, Marcos Sage, e tantos outros, que passaram pela minha formação, e que me transformaram neste investigador da dança, contínuo reverenciando-os até a eternidade.

Para quem quer entrar na área da dança, o que você indica, qual seu conselho?

A dança ela é plural, a gente precisa entender o que que eu quero com essa dança. Ela é para lazer, para estudos, para um futuro, para uma competição. Hoje a dança está em vários lugares, para quem pretende seguir a carreira, tem que ter disciplina e resiliência, temos que mostrar qual é nossa essência neste movimento artístico, para entrar no mundo da dança temos que amar ela, temos que ter paciência, dança é uma construção, é uma conquista diária. Dança é ação e reação.

E Joinville na sua vida?

É o meu berço, onde eu me identifico como ser humano, onde eu me encontro, me sinto em casa. Muitos me questionam, o porquê de mesmo eu ter conhecido o mundo, fixar raízes em Joinville, para mim a resposta é fácil, me sinto pertencente em Joinville, não consigo explicar em palavras, mas se existe um lugar que eu pertenço é aqui, me sinto acolhido.

Joinville me inspira, eu amo essa cidade. Tenho minhas conquistas, porque Joinville me projetou para isso. Aqui é meu ninha, minha raíz, aqui existem políticas que abraçam essa dança. Tenho grandes pretensões de ir para grandes centros, mas ter a possibilidade de sempre voltar para casa.

Mais Informações

Centro de Dança e Pesquisa Fernando Lima

  • Rua: Henrique Dias, 411 - Anita Garibaldi, Joinville – SC
  • Telefone: (47) 98831-1349
  • Fan page: https://www.facebook.com/dancafernandolima
  • Instagram: @dancafernandolima @nandolima

Galeria de Imagens:

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