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JEC: O abismo entre o discurso e o delírio

A necessária pregação pela austeridade se choca com a falta de realismo do comando. O JEC precisa de um líderes para a travessia, não de sonhadores.

Por: Gabriel Fronzi

15:29:00 - 09/03/2026

JEC: O abismo entre o discurso e o delírio

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No futebol, como na vida, há momentos em que a realidade se impõe com a força de um zagueiro desleal. Para o torcedor do Joinville, esse momento já dura pelo menos 10 anos. Acostumado a sonhar com acessos e títulos, ele é convidado a um exercício diário de realismo brutal.

A pergunta lançada pelo presidente em exercício, Derian Campos, nas entrevistas das última semana, ecoa como um ultimato: estamos, afinal, prontos para a dor? Prontos para "fechar as torneiras", para aceitar um time modesto, para entender que a grandeza do passado não paga as contas do presente? A provocação é válida, corajosa até. É o reconhecimento de que o clube, em plena Recuperação Judicial, não pode mais viver a fantasia de gastar um dinheiro que simplesmente não existe.

É a admissão de que o caminho que nos trouxe até aqui – o do improviso, do gasto irresponsável, da aposta que nunca se paga – é o caminho do cemitério. O dilema é claro como a luz do dia: ou o JEC se encolhe para sobreviver, ou mantém a pose de gigante e se estilhaça de vez. É uma escolha entre a humildade que reconstrói e o orgulho que destrói.

E, por mais que doa, a razão aponta para um único lado. Sim, presidente, a torcida que ainda se importa entende. Ela está pronta para a travessia no deserto. A questão é outra: o guia sabe o caminho ou está apenas olhando para miragens?

O líder e seu labirinto

É aqui que a narrativa se complica. Um processo de austeridade, para ser legítimo, precisa de um líder que seja a personificação do realismo. Um capitão que, em meio à tempestade, inspire confiança não por prometer o sol, mas por saber amarrar as velas e conhecer os perigos do mar.

O que assusta no JEC de hoje é que o nosso capitão parece navegar olhando para as estrelas erradas. A mesma voz que prega o corte de gastos é a que, em um devaneio público, ventila o nome de Filipe Luís, recém-saído do Flamengo, para comandar um time de Série D.

Não se trata de um simples erro de comunicação. É um ato falho que revela um universo. Mostra uma desconexão com a realidade que beira o surreal. É como o náufrago que, agarrado a um pedaço de madeira, se preocupa em qual restaurante de luxo irá jantar quando chegar à terra firme. A repercussão nacional, um misto de chacota e incredulidade, não foi um ataque ao JEC, mas a constatação óbvia de que a diretoria do clube parece viver em um planeta diferente daquele em que as contas vencem e os salários atrasam.

Fotos da Coluna: Divulgação/ JEC

A credibilidade como único ativo

O que o presidente talvez não entenda é que, para um clube na situação do Joinville, a credibilidade não é um luxo, é o único ativo que resta. É a moeda com a qual se negocia com credores, se atrai um investidor sério e, principalmente, se mantém a chama da paixão do torcedor acesa.

Cada declaração desconexa, cada sonho fora de hora, é como rasgar uma nota de cem reais na frente de quem não tem o que comer. Corrói a confiança, desmoraliza o projeto e faz com que a necessária austeridade pareça apenas o discurso vazio de quem não sabe o que está fazendo.

A pergunta, portanto, se inverte. Não é se a torcida está pronta para um JEC mais pobre. A pergunta é se o JEC está pronto para ter uma gestão séria. Uma gestão que entenda que planejar a Série D não é pensar em nomes de grife, mas em como garantir o almoço dos atletas, o diesel do ônibus e a luz do vestiário. É o básico. E o JEC, hoje, falha no básico.

O torcedor tricolor, esse personagem calejado pela sucessão de tristezas, fica no meio do caminho, assistindo a um espetáculo esquizofrênico. De um lado, o discurso correto da responsabilidade. Do outro, os atos que flertam com a fantasia. Entre o realismo que dói e o sonho que ilude, o JEC precisa desesperadamente escolher um lado. E precisa de um líder que não apenas aponte o caminho, mas que caminhe junto, com os pés firmes no chão duro da nossa realidade.

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